Um novo bloco de poder busca ‘refundar’ a Bolívia e apagar o passado recente A queda de Evo Morales deu lugar a uma nova coalizão política e social que, em movimento pendular na história do país, pretende eliminar as marcas, os símbolos e as políticas dos últimos 14 anos 16/02/2020 por Fernando Molina*

A atual situação na Bolívia só pode ser entendida se a seguinte noção do sociólogo Fernando Calderón for levada em consideração: “Na Bolívia, o Estado é muito fraco e a sociedade é muito forte”. Isso explica tanto as peculiaridades da queda do ex-presidente Evo Morales como os eventos dos  primeiros meses do governo de transição.

"O Estado boliviano é fraco" significa que suas instituições não têm corpo próprio e são facilmente instrumentalizadas por grupos de pressão e forças políticas. Isso também significa que as normas não são ditadas ou cumpridas por meio de procedimentos regulados e abstratos, mas sim de forma subjetiva e de acordo com a correlação de forças conjuntural. Disso se infere o significado da sentença oposta: a “sociedade boliviana é forte” porque muitas vezes se impõe ao Estado e o utiliza para seus propósitos.
A Bolívia é o segundo país com mais linchamentos, somente depois da Guatemala. Em um linchamento, a sociedade dispensa o Estado ou prescinde dele para executar, por conta própria, a sua concepção de justiça.
Essa concepção é primitiva, porque se baseia em um princípio moralista, aplica a lei de talião e é desencadeada a partir do medo de uma ameaça externa. As vítimas de linchamentos geralmente são forasteiros, pessoas consideradas suspeitas pelos linchadores porque não pertencem ao mesmo grupo que eles. A crença estúpida dos linchadores em sua própria superioridade moral bloqueia a sua capacidade de entender e simpatizar com seres humanos que sofrem e se queixam de seus tormentos. Quando esse bloqueio é ativado, os excessos mais terríveis são incentivados pela multidão; os cruéis são aplaudidos e protegidos, e relutantes e ponderados são alvo de suspeita ou escárnio.
As classes médias bolivianas consideravam linchamentos práticas selvagens, típicas dos povos indígenas, com os quais não tinha nada a ver. No entanto, seu comportamento em relação aos líderes do governo anterior e aos líderes e militantes do Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales pode ser descrito como um linchamento por etapas ou progressivo.
Isso começou antes da queda de Morales, quando os recém-formados "grupos de choque" contra o ex-presidente, que se autodenominam "A Resistência", começaram a procurar e agredir integrantes do MAS nas principais cidades do país. Esses grupos se radicalizaram por causa do assassinato a bala, por membros do MAS, de dois manifestantes em Montero, no departamento (estado) de Santa Cruz de la Sierra, em 29 de outubro do ano passado, em meio aos protestos que se seguiram às eleições de 20 de outubro.
Em 7 de novembro, “A Resistência" sequestrou por algumas horas a prefeita de Vinto (Cochabamba), Patricia Arce, e a sujeitou a escárnio (como sempre ocorre em todos os linchamentos). Se Arce não perdeu a vida, foi por causa de uma equipe de televisão que gravou os seus raptores. Nos dias seguintes, para pressionar os funcionários evistas a renunciarem, grupos civis incendiaram, em Potosí, a casa da mãe do ministro de Minas, César Navarro, e sequestraram seu sobrinho; eles também capturaram, na mesma cidade, o irmão de Victor Borda, presidente da Câmara dos Deputados. Em Oruro, foram atacadas as casas da irmã de Evo Morales e do governador da região, Víctor Hugo Vásquez.
Esses fatos foram acompanhados pelo "linchamento" de integrantes do MAS nas redes sociais, dominadas pelos setores mais afluentes da população. Os ataques na internet que já existiam contra pessoas de esquerda, ligadas ao governo ou simplesmente críticos ao viés anti-institucionalista e racista que a luta contra a "ditadura" do MAS estava adquirindo, tornaram-se simplesmente frenéticos. As redes foram inundadas com mensagens de ódio, delações, falsas acusações e informações inventadas para aterrorizar os navegadores contra o MAS.
Após a renúncia de Morales, na tarde de 10 de novembro, seus seguidores se manifestaram violentamente em El Alto e La Paz e queimaram uma fábrica, uma estação de ônibus, vários prédios policiais e as casas do reitor da Universidade de La Paz, Waldo Albarracín, e da jornalista Casimira Lema. Esses excessos não foram combatidos pela polícia, que então permanecia desorganizada pelo motim que havia declarado dias antes. O Exército também não agiu, por razões ainda não esclarecidas, tendo preferido esperar em seus quartéis até 11 de novembro à noite.
A falta de segurança nos bairros de La Paz durante essas 36 horas, especialmente os próximos à periferia camponesa, alguns deles muito ricos, restabeleceu o "medo do ataque indígena", algo atávico na mentalidade de muitas famílias, efeito irracional de uma longa história de racismo e conflitos étnicos. Muitos homens se armaram com facas e bastões, saíram e montaram barricadas para se defender das "multidões" de moradores de El Alto, vizinha a La Paz, e das "hordas" de camponeses — como a mídia os chamava — que, supunham, já estavam prontas para saquear suas casas, estuprar suas famílias e matar a todos. Quando, finalmente, os militares e a polícia começaram a patrulhar as ruas, foram recebidos com um alívio que rapidamente se converteu em adesão fanática.
Os moradores de classe média de La Paz e El Alto — e, por identificação natural, os das demais cidades do país — que já estavam incomodados com a esquerda por causa da exclusão, dos abusos e da torpeza do governo do MAS, e também por sua convicção de que houve uma "fraude monumental" nas eleições, voltaram-se então para a direita. A partir de então, sua principal preocupação não era outra senão a "pacificação" do país mediante a implacável repressão militar de qualquer força e de qualquer manifestação de apoio a Morales, o MAS ou o estado anterior de coisas.
O vigor desse sentimento foi tal que sufocou as aspirações "republicanas" que essas classes tinham alentado, confirmou aos militares o acerto de sua decisão de 10 de novembro de não defender o presidente constitucional e proporcionou à elite política até então opositora, pela primeira vez em duas décadas, uma agenda que poderia ser realizada com amplo respaldo popular.


Fonte: O Globo.com

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