Bolsonaro revela inquérito da PF que mostra invasão ao sistema do TSE em 2018, inclusive a código-fonte das urnas Inquérito era sigiloso; segundo o TSE, o hacker teria acessado apenas a eleição suplementar em Aperibé (RJ) Publicado em: 05/08/2021


Na noite de ontem, durante o programa Pingo nos Is da Jovem Pan (AQUI), o presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Filipe Barros (PSL-PR), relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Voto Impresso, que será votada hoje à tarde em comissão especial na Câmara dos Deputados, apresentaram um inquérito da Polícia Federal de novembro de 2018 que mostra que um hacker – cuja identidade até hoje é desconhecida – invadiu durante sete meses (de abril a novembro daquele ano), sem ser descoberto, todo o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive roubando senha de ministro do TSE e senhas de acesso a todo o servidor do TSE, além de acesso a todos os e-mails e, o mais grave ainda, ao código-fonte das urnas e a chaves de acesso.

Segundo email enviado à época pelo hacker contendo as provas do crime, ele fez isso apenas para mostrar que as urnas eram violáveis e que as eleições poderiam ser fraudadas; em suas próprias palavras, que se pode “comprometer o pleito”.

De acordo com o relatório do TSE, assinado por Giuseppe Dutra Janino, o então secretário de Tecnologia da Informação do TSE e chamado de “O Pai das Urnas Eletrônicas”, que trabalhou na instituição por mais de 20 anos, se desligando dela em 12 de julho deste ano (AQUI) para, segundo o presidente Bolsonaro, trabalhar como assessor pessoal do ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do TSE, o hacker teria acessado apenas a eleição suplementar na cidade de Aperibé, no interior do Rio de Janeiro, cidade com apenas 11 mil habitantes. “As senhas de oficialização permitem a alteração de dados de partidos e candidatos, até mesmo a sua exclusão, no contexto de um processo eleitoral. Ou seja, no caso concreto afeta apenas a eleição suplementar 2018 de Aperibé/RJ”, diz o documento assinado pelo secretário de TI do TSE.

O deputado Filipe Barros divulgou em suas redes sociais uma análise do engenheiro de software Rafael Quintanilha, que tenta explicar aos leigos didaticamente o conteúdo do inquérito. Diz o técnico: “Antes de mais nada, vamos entender como funciona a urna eletrônica (simplificadamente): um código fonte (programa de computador) vive na urna eletrônica (que nada mais é do que um computador), que usa um sistema chamado de Uenux. Essa urna se comunica com um servidor central chamado Gedai-UE, responsável por diversas funções dentro do processo eleitoral. Esse foi o serviço comprometido segundo o inquérito. No entanto, o software que faz a contabilização dos votos vive na urna eletrônica. Mesmo que o Gedai-UE seja comprometido, se a urna não o for, uma possível fraude seria revelada com a totalização dos boletins, o que o TSE convenientemente chamou de ‘impresso e auditável’. Esse sempre foi o ponto chave da discussão. Como podemos auditar que o software da urna eletrônica é efetivamente seguro e está realizando as computações corretas? À primeira vista, não podemos. E isso foi reiterado no próprio inquérito. De qualquer modo, só o fato de haver evidência de acesso indevido ao servidor central já é por si só extremamente grave”.

“Mas agora entra o ponto chave da questão”, prossegue Quintanilha. “De fato, parece que não houve acesso indevido às urnas eletrônicas. Mas já pararam pra refletir como o software da urna é ‘instalado’ lá? Bem, isso foi o que requereram ao TSE, que respondeu assim: ‘O servidor de buiud dos códigos fontes da urna eletrônica não possuía qualquer tipo de log habilitado. Devido a manutenções para solucionar travamentos nos firewall do TSE, a equipe da Global IP [empresa terceirizada] realizou reinstalação do serviço de gerência, não tendo o devido cuidado de não prejudicar os logs armazenados. Outrossim, o volume de logs configurado pela empresa ficou em apenas 80GB, sendo suficiente para apenas 2 dias, considerando-se o volume de acessos durante o pleito eleitoral’. Em outras palavras, não há nenhum registro sobre qual código estava rodando nas urnas em um determinado momento no tempo. Isso significa que um atacante pode ter colocado um código malicioso nas urnas e limpado os rastros, uma vez que os logs não existem”, ressalta o técnico.

“A coisa realmente fica bem esquisita. A aplicação central foi comprometida e não sabemos que código a urna estava rodando no momento solicitado. Mas ainda assim isso não prova que nenhum código indevido esteve presente nas urnas durante a eleição. E aqui entra a parte mais grave de todas: nos autos houve a tentativa (bem correta, por sinal) de se entender se era possível acessar o servidor que hospedava o código fonte da urna (pra quem é da área, basicamente se havia a possibilidade de se acessar o GitHub da urna). Eis que... sim! O serviço responsável por compilar o código e enviar para a urna (integração contínua ou continuous integration no nosso jargão) não possuía sequer autenticação e permitia o acesso ao código fonte que era enviado para a urna”, alerta Quintanilha.

“Em resumo: a aplicação central do TSE (Gedai-UE) foi comprometida; nesse ataque, houve a possibilidade de se acessar o código-fonte e o serviço que envia o código para a urna; e registros de que código rodava em que urna foram deletados. Aqui não é uma afirmação, mas se era possível acessar o repositório onde o código ‘vivia’ e o serviço que fazia o ‘upload’ do código para urna não tinha nem autenticação, é possível que um atacante tenha comprometido o código fonte e enviado para a urna? Dessa forma, a urna pode ser ‘inviolável’, mas não a aplicação que ‘instalava’ o código responsável pelas totalizações de voto ali. E assim uma manipulação de dados poderia ser feita”, conclui.

O TSE foi procurado durante toda a noite de ontem pela imprensa para responder sobre as informações do inquérito da PF e do relatório do próprio TSE enviado à PF, mas só se pronunciou nesta madrugada em nota. A nota pode ser lida AQUI. O TSE afirma no Item 1 de sua nota que, embora o inquérito fosse sigiloso, a informação não era nova, tendo sido divulgada na época por vários veículos de comunicação, o que é verdade; entretanto, na época ela foi apresentada como alegações, sendo somente agora confirmada, com a divulgação do documento pelo presidente da República. O próprio TSE nunca confirmou publicamente o ocorrido. A instituição afirma também, no Item 2 de sua nota, que "o acesso indevido, objeto de investigação, não representou qualquer risco à integridade das eleições de 2018, isso porque o código-fonte dos programas utilizados passa por sucessivas verificações e testes, aptos a identificar qualquer alteração ou manipulação", de maneira que "nada de anormal ocorreu".

Após a publicação da nota, técnicos se manifestaram indicando fragilidades nas explicações do TSE e ressaltando a gravidade do ocorrido (veja AQUI e AQUI). Eles afirmam que tais verificações e testes não garantiriam a segurança "uma vez que o servidor que cria o código das urnas não tinha logs habilitados [como afirma o TSE no inquérito da PF], e o GEDAI-UE - aplicação central de programação das urnas - foi comprometido". Isso invalidaria também todos os demais argumentos dos itens apresentados subsequentemente na nota do TSE, segundo esses especialistas. No Item 3 da sua nota, o TSE afirma ainda que "o programa simplesmente não roda se vier a ser modificado". Porém, especialistas rebatem lembrando que ficou provado nos testes públicos de segurança das urnas realizado em 2017 que seria possível rodar nelas programas modificados (veja AQUI). 

O presidente Jair Bolsonaro disponibilizou a íntegra do conteúdo do inquérito sigiloso da Polícia Federal para a população. Ele pode ser acessado AQUI.

 

Redação CPAD News - Foto: Captura de tela do programa Pingo nos Is / Jovem Pan

 

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