A luta contra os impactos ambientais e sociais causados pela mineração predatória da Braskem em Maceió persiste mesmo diante de uma série de relatos de intimidação crescente contra moradores e líderes que ousaram resistir. O mais recente episódio foi o incêndio na casa do procurador do Ministério Público do Trabalho, Cássio Araújo, coordenador-geral do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), ocorrido na madrugada de terça-feira (8), no bairro do Pinheiro.
O MUVB classifica como criminosa a ação que destruiu parte da casa e uma bibilioteca com mais de 20 mil livros, avaliada por ele em cerca de R$ 6 milhões. O imóvel, localizado na esquina da Rua Professor José da Silva Camerino, uma das principais do bairro do Pinheiro e bem próximo à Ladeira do Calmom, que dá acesso ao histórico e finado bairro de Bebedouro, foi tomado pelas chamas de madrugada. O procurador disse que uma garrafa de álcool foi achada no local.
Para o professor e ecologista José Geraldo Marques, também uma das
vozes mais críticas à mineração da Braskem e ex-morador do Pinheiro,
descreveu o incêndio como parte de uma estratégia histórica de
manipulação. "Pode ser a velha tática de Nero e Hitler: manda tocar fogo
e depois inventa um culpado na parte opositora! Aguardemos!", comentou
Marques, em entrevista à Tribuna Independente, sugerindo que os
responsáveis pelo atentado estariam tentando culpar as vítimas.
Marques,
que prestou depoimento à CPI da Braskem no Senado, já havia sido vítima
de violência quando foi forçado a desocupar sua casa no Pinheiro. Ele
relatou que sua biblioteca foi depredada à marretadas e importantes
documentos históricos relacionados à Salgema, nome original da Braskem,
foram roubados. "A minha biblioteca, que continha todos os meus arquivos
da Salgema, foi destruída. Meu filho salvou o pouco que pôde. Mas não
era só a quantidade de livros, mas a raridade de vários deles", lamentou
o ecologista, que foi um dos primeiros a se posicionar contra a
instalação da mineradora nos anos 70.
O empresário Alexandre
Sampaio, presidente da Associação dos Empreendedores Vítimas da
Mineração em Maceió, também denunciou a escalada de violência. Segundo
ele, quem se opõe à Braskem enfrenta uma série de represálias, que vão
desde ameaças de morte até campanhas de difamação. Sampaio relatou que,
após resistir às negociações com a mineradora, foi vítima de ataques à
sua imagem nas redes sociais. "Para os que lideram, as ameaças de morte,
ou a violência do assassinato de reputação, como o que eu sofri ao
chegar em Brasília para depor na CPI. Tudo sob o silêncio igualmente
criminoso das autoridades", afirmou.
Ele acrescentou que o
incêndio na casa de Cássio Araújo foi mais uma etapa de um padrão de
hostilidade por parte da Braskem. Sampaio destacou que o procurador
resistiu a aceitar acordos propostos pela empresa e, em resposta, foi
impedido de entrar na própria casa e teve seu imóvel vandalizado. "Para
quem protesta, a violência e o assédio processual são constantes",
denunciou.
Em nota enviada à imprensa, a empresa mineradora cobrou a apuração das causas do incêndio e disse que considera inadmissível qualquer insinuação sobre participação ou interesssa da companhia no incêndio registrado na terça-feira, 8, no bairro do Pinheiro.
"A empresa espera que o Corpo de Bombeiros apresente informações técnicas sobre o possível motivo do incêndio e, se de fato tiver sido criminoso como alega o proprietário, que a autoria seja devidamente apurada."
“A
Braskem considera inadmissível qualquer insinuação sobre participação
ou interesse da Companhia em um incêndio, registrado na última
terça-feira, 8, em um imóvel desocupado, no bairro do Pinheiro.