A crise política em torno da demarcação
das terras indígenas Xukuru-Kariri, em Palmeira dos Índios, começa a
cobrar seu preço. A vice-prefeita Sheila Duarte anunciou sua desfiliação
do Partido dos Trabalhadores (PT) após mais de duas décadas de
militância. A saída ocorre em meio ao acirramento do debate sobre a
homologação de mais de 7 mil hectares de terras, que deve atingir parte
expressiva da zona rural do município.
A maioria da população de
Palmeira dos Índios é contrária à demarcação, e o tema se transformou em
um divisor de águas na cidade, pressionando a administração municipal a
se posicionar. A movimentação de Sheila seria uma reação direta à
pressão popular. Ela deixa o partido logo após o deputado federal Paulão
(PT-AL) defender, na Câmara dos Deputados, celeridade na homologação
das terras Xukuru-Kariri, reforçando o posicionamento do Governo Federal
a favor da causa indígena.
Enquanto a
vice-prefeita se afasta do PT, a prefeita Tia Júlia se mantém em cima
do muro, empurrando a bronca para o governo federal. Publicamente, ela
evita se posicionar contra ou a favor da demarcação, alegando que a
Prefeitura “acompanha o processo com responsabilidade e busca o
diálogo”.
No entanto, declarações recentes e a própria nota
oficial emitida pela gestão municipal indicam que o caminho adotado será
o de acatar a decisão da Funai e do Governo Federal, mesmo que isso
signifique contrariar a maioria da população local.
“O nosso
compromisso é com o diálogo, o equilíbrio e a busca por uma solução
pacífica”, diz o texto da Prefeitura. Nos bastidores, porém, o apoio à
demarcação é dado como certo. O discurso conciliador, segundo aliados
políticos, é uma tentativa de reduzir o desgaste num município onde
cresce o sentimento de indignação e insegurança entre pequenos
agricultores e trabalhadores rurais.
A
possibilidade de homologação das terras, que representam cerca de um
terço do território de Palmeira dos Índios, mobiliza comunidades,
produtores e lideranças políticas. O temor é de que o reassentamento de
famílias e a retirada de pequenos agricultores causem um colapso social e
econômico. Em diversas localidades, o clima é de tensão e desconfiança
em relação ao poder público.
A crise já começa a redesenhar o
cenário político do município. Enquanto Tia Júlia tenta se manter neutra
e administrar o desgaste, Sheila Duarte tenta se distanciar do governo
federal e do PT, sinalizando que buscará novo espaço político.
O
episódio abre caminho para o fortalecimento de outras lideranças locais,
como o advogado Adeilson Bezerra, presidente estadual do Solidariedade,
que vem se destacando na defesa jurídica dos pequenos produtores e na
articulação política em Brasília.
Com a pressão social em alta e a população cada vez mais mobilizada, a demarcação das terras Xukuru-Kariri promete ser o tema central das próximas eleições no município. Candidato a deputado em 2026 que ficar a favor da demarcação deve ter poucas chances de votos na cidade. E claro que esta questão terá fortes reflexos nas eleições municipais de 2028. Mas essa é outra história.
