O mercado de leite em Alagoas vive um
dos momentos mais delicados dos últimos anos. A combinação entre
retração dos preços pagos ao produtor, aumento das importações e custos
internos ainda elevados pressiona toda a cadeia, do pequeno fornecedor à
indústria. Os dados mostram o tamanho da perda: em outubro de 2024, o
litro pago ao produtor alagoano estava em R$ 2,77; hoje, segundo a
Conab, gira em torno de R$ 2,20.
A queda, de mais de 20%, aliada a
inflação, corrói margens, reduz faturamento e compromete a atividade em
um estado que já ultrapassa a casa de 2 milhões de litros produzidos
por dia.
A seguir, a comparação direta entre os preços médios pagos em Alagoas:
Preço do leite ao produtor – AL (Conab)
– Outubro/2024: R$ 2,77
– Novembro/2024: R$ 2,85
– Outubro/2025: R$ 2,21
– Valor atual (média): R$ 2,20
Variação outubro/2024 → outubro/2025: –20,2%
Variação novembro/2024 → outubro/2025: –22,8%
A
queda nominal é expressiva, sobretudo porque ocorre num momento em que
as importações crescem, pressionando o mercado interno. Conforme
relatado pelo SILEAL — e já levado pela FIEA à CNI — os laticínios
brasileiros enfrentam concorrência de países vizinhos que exportam com
preços artificialmente baixos, reduzindo ainda mais a competitividade
nacional.
Nessa conjuntura, o impacto
para Alagoas é direto. O Anuário Leite 2025 da Embrapa mostra que o
estado foi, em 2023, o quarto maior produtor do Nordeste e o décimo do
Brasil, com 703,4 milhões de litros ao ano — o equivalente a 1,92 milhão
de litros por dia. Considerando a evolução recente da bacia leiteira,
estima-se que a produção atual supere 2 milhões de litros/dia.
Com
esse volume, a perda diária causada pela redução no preço pago ao
produtor chega a cerca de R$ 1,3 milhão por dia ou quase R$ 500 milhões
ao ano e pode ser estimada da seguinte forma:
Cálculo da perda de faturamento por queda de preço
Produção estimada atual: 2.000.000 litros/dia
Queda média no preço (nov/24 → out/25): R$ 0,65 por litro
Perda por dia: 2.000.000 litros × R$ 0,65 = R$ 1.300.000
Perda por mês (30 dias): R$ 1.300.000 × 30 = R$ 39 milhões
Perda por ano: R$ 1.300.000 × 365 = R$ 474,5 milhões
É
quase meio bilhão de reais retirados da economia alagoana — e isso
apenas considerando o elo primário da cadeia. O efeito se desdobra na
indústria, no varejo e nos municípios que dependem da circulação direta
de renda gerada pelo leite.
O cenário ajuda a explicar a
mobilização do SILEAL por medidas emergenciais, como a suspensão
temporária das licenças de importação, apontada como necessária para
conter uma crise que atinge tanto os produtores quanto os laticínios
locais. Até as cooperativas de pequenos produtores de leite, que
normalmente são menos afetadas por crises sazonais, passaram a enfrentar
dificuldades para manter suas operações.
Representantes da indústria afirmam que, sem uma intervenção, a tendência é de agravamento da perda de competitividade. Além das pressões externas, a bacia leiteira alagoana ainda enfrenta instabilidades no comércio de leite natura com Pernambuco, que deve sofrer ajustes tributários e logísticos. Parte importante da produção local escoa para o mercado pernambucano, e qualquer dificuldade adicional pode piorar o quadro.
A seguir, uma síntese objetiva dos principais dados e tendências que explicam a crise atual:
Principais fatores que afetam o mercado
– Aumento das importações de lácteos, principalmente do Mercosul
– Produtos importados com preços artificialmente reduzidos
– Custos domésticos superiores aos de países exportadores
– Redução das margens das indústrias locais
– Queda acentuada do preço pago ao produtor em AL
– Risco crescente de inviabilidade econômica em pequenas e médias propriedades
– Incertezas tributárias na venda para Pernambuco
– Pressões sobre emprego e renda em municípios da bacia leiteira
Produção de leite em Alagoas (Embrapa/IBGE – 2023)
– Produção anual: 703,4 milhões de litros
– Média diária (2023): 1,92 milhão de litros
– Estimativa atual (2025): acima de 2 milhões de litros/dia
– Posição no Nordeste: 4º maior produtor
– Posição nacional: 10º maior produtor
(A
Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE aponta números menores, de 596,9
milhões de litros produzidos em 2024 no Estado de Alagoas)
Produtores
De
acordo com dados do IBGE (Censo Agropecuário 2017) Alagoas tinha 14,2
mil estabelecimentos rurais atuando diretamente na produção de leite e o
perfil é maioria de pequenos produtores (mais 70% das propriedades).
Esses números dimensionam a relevância do setor para a economia
estadual. A queda no preço atinge diretamente milhares de famílias,
limita investimentos e compromete a sustentabilidade da cadeia
produtiva. A produção de leite no Estado.
O alerta do SILEAL reforça que a crise, embora intensificada pelo cenário internacional, já se desdobra no cotidiano dos produtores: fechamento de postos de trabalho, formação de estoques, redução de rebanhos e paralisação de projetos de ampliação ou modernização.
Diante
desse ambiente adverso, a adoção de medidas de defesa comercial é vista
por lideranças do setor como questão de sobrevivência. A pauta agora
tramita na Confederação Nacional da Indústria, onde deverá ser analisada
por especialistas do Coagro com a perspectiva de indicar correções de
rumo capazes de mitigar os efeitos da crise no curto prazo.
A
despeito do cenário desafiador, o potencial produtivo de Alagoas
permanece evidente. A cadeia do leite movimenta centenas de milhões de
reais, sustenta milhares de empregos e integra municípios inteiros à
dinâmica econômica estadual. É justamente por isso que qualquer
oscilação, como a verificada nos últimos meses, tem impacto amplo — e
exige respostas proporcionais ao tamanho do problema.
Fique por dentro
SILEAL formaliza à FIEA e à CNI pedido de suspensão temporária das licenças de importação de lácteos

