Mistério da antimatéria ganha novo fôlego com sinais detectados fora da Via Láctea Descoberta amplia o mistério: a Via Láctea parece produzir muito mais pósitrons do que as fontes conhecidas conseguem explicar Por Sputnik Brasil 26/07/2026 13h01

Descoberta amplia o mistério: a Via Láctea parece produzir muito mais pósitrons do que as fontes conhecidas conseguem explicar - Foto: © Foto / NASA, ESA, The Hubble Heritage Team (STScI/AURA)

Astrônomos detectaram, pela primeira vez, sinais de aniquilação de pósitrons fora da Via Láctea, sugerindo que partículas de antimatéria podem estar escapando da galáxia. A descoberta amplia o mistério: a Via Láctea parece produzir muito mais pósitrons do que as fontes conhecidas conseguem explicar.

A emissão de raios gama no centro da galáxia desafia explicações convencionais há décadas. Pesquisadores observam uma população excessiva de pósitrons se aniquilando com elétrons na região central, gerando flashes característicos de 511 keV. Mesmo considerando todas as fontes conhecidas de antimatéria — de explosões estelares a objetos compactos — o volume de pósitrons detectado segue inexplicavelmente alto.

Estas imagens mostram visões amplas e aproximadas de uma longa faixa de gás chamada Corrente de Magalhães, que se estende por quase metade da Via Láctea. Na imagem superior, que combina dados de rádio e luz visível, a corrente gasosa aparece em rosa. A Via Láctea é a faixa azul-clara no centro, enquanto os aglomerados marrons são nuvens de poeira interestelar. As Nuvens de Magalhães, galáxias satélites da Via Láctea, aparecem como regiões brancas no canto inferior direito. A imagem inferior é um mapa detalhado da Corrente de Magalhães que mede a quantidade de elementos pesados — como oxigênio e enxofre — em seis pontos marcados com “x” ao longo da corrente
Estas imagens mostram visões amplas e aproximadas de uma longa faixa de gás chamada Corrente de Magalhães, que se estende por quase metade da Via Láctea. Na imagem superior, que combina dados de rádio e luz visível, a corrente gasosa aparece em rosa. A Via Láctea é a faixa azul-clara no centro, enquanto os aglomerados marrons são nuvens de poeira interestelar. As Nuvens de Magalhães, galáxias satélites da Via Láctea, aparecem como regiões brancas no canto inferior direito. A imagem inferior é um mapa detalhado da Corrente de Magalhães que mede a quantidade de elementos pesados — como oxigênio e enxofre — em seis pontos marcados com “x” ao longo da corrente

Ao analisar o conjunto completo de dados do telescópio INTEGRAL, os pesquisadores Thomas Siegert e Hiroki Yoneda identificaram algo ainda mais intrigante: sinais de aniquilação de pósitrons em regiões além da Via Láctea. O achado sugere que parte dessas partículas pode estar escapando do disco galáctico antes de desacelerar e se aniquilar, indicando uma produção de antimatéria muito maior do que se estimava.

Os sinais mais intensos foram detectados em duas estruturas extragalácticas: o Complexo C, uma imensa nuvem de gás em direção ao disco galáctico, e a Corrente de Magalhães, que acompanha as Nuvens de Magalhães. Essas áreas não deveriam produzir pósitrons em grande quantidade, reforçando a hipótese de que as partículas viajaram da própria galáxia até lá.

O enigma se aprofunda porque pósitrons só se aniquilam eficientemente quando estão lentos — e partículas tão lentas não deveriam conseguir escapar da Via Láctea. Para Siegert, isso indica a existência de uma fração de pósitrons mais energéticos, capazes de fugir e depois desacelerar no gás extragaláctico. Essa fuga, até então inesperada, amplia consideravelmente o balanço de produção de antimatéria da galáxia.

Se essa interpretação for confirmada, a Via Láctea pode estar produzindo até 100 tredecilhões de pósitrons por segundo, duas a três vezes mais do que estimativas anteriores. Isso desafia os modelos astrofísicos tradicionais, que já enfrentam dificuldades para explicar o excesso observado apenas dentro da galáxia. As detecções, contudo, ainda são estatisticamente frágeis, já que o sinal mais forte atingiu quatro sigma, abaixo do patamar de descoberta científica.

Siegert acredita que há um sinal real, mas ressalta que novas observações serão essenciais para confirmar sua intensidade e origem.

O futuro telescópio COSI, da NASA, previsto para 2027, deverá testar esses "indícios tentadores" e ajudar a rastrear o caminho dos pósitrons, o que pode, caso as descobertas se confirmem, levar a física além das explicações convencionais envolvendo matéria escura.



 

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